A Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi) e a Empresa
de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina S.A. (Epagri), promoveram
no dia 11 de julho de 2008, em Agronômica (SC), no Centro de Pesquisas da
Epagri (Cetrag), seminário sobre hidrologia florestal, para técnicos da Epagri e extensionistas do Projeto Microbacias 2.
O evento contou
com a participação de cerca de 60 pessoas, entre elas técnicos do Microbacias
2, Engenheiros Agrônomos, Ecólogos e Técnicos Agrícolas.
Um dos temas
tratados foi “As florestas plantadas e a água”. A palestra foi ministrada pelo
professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Masato Kobiyama.
Este tema foi uma demanda dos
técnicos da Epagri em função de ser um assunto gerador de muitas
dúvidas por parte da sociedade. Considerando, ainda, o fato de que a
silvicultura, principalmente com eucaliptos, está sendo incorporada à
agricultura familiar da região.
As florestas
plantadas com exóticas são importantes quando se leva em consideração alguns
produtos por ela gerados e que são utilizados pela sociedade de uma forma
geral. Se olharmos pela ótica ambiental, notamos que as florestas nativas são extremamente
importantes para a conservação da biodiversidade. Elas têm a função de amenizar
os efeitos do clima (temperatura e umidade), reduzir as enchentes e a recarga
do rio, controlar a erosão, melhorar a qualidade da água no solo e nos rios,
reduzir a poluição atmosférica, fornecer oxigênio (O2) e fixar gás
carbono (CO2), produzir biomassa, remédios, alimentos, recreação,
turismo e educação ambiental, etc. Essas características das florestas nativas
são importantes, pois, suas funções atuam simultaneamente.
Masato salientou
que um bom trabalho de planejamento integrado de bacias hidrográficas é
importante para que os resultados positivos sejam alcançados. É importante que
as bacias hidrográficas sejam concebidas não como responsáveis pela drenagem,
mas sim como uma rede de armazenamento de água.
O professor afirmou ainda que é de fundamental importância realizar estudos hidrológicos
para reconhecer as influências das florestas e das atividades florestais sobre
a água, por meio de uso de bacias
experimentais.
Após a palestra sobre hidrologia, o Engenheiro Florestal da Apremavi, Leandro Casanova,
relatou experiências desenvolvidas pela instituição sobre restauração de áreas
degradadas, enfocando principalmente áreas ciliares (Áreas de Preservação
Permanentes).
Foram
apresentadas metodologias de plantio, que tem por finalidade potencializar os
resultados de recuperação de matas ciliares, considerando que são locais
prioritários para conservar os recursos hídricos.
As florestas
exóticas têm um importante papel na economia, produzindo bens de consumo para
várias utilizações, desde que a legislação ambiental seja respeitada e
cumprida.
Comentários
Paulo Brack em 15/07/2008 às 23h24
No Brasil e nos países tropicais, em geral, as florestas são ecossistemas diversos e complexos em estrutura e função. No que toca às florestas brasileiras, país detentor do título de campeão da megadiversidade biológica, são encontradas muitas centenas de espécies vegetais em um só hectare, representadas, cada uma delas, por populações genética e fenotipicamente diversas, dispostas em vários estratos. As formas vegetais são variadas, como ervas, epífitas, trepadeiras, arbustos e até árvores. Pelo menos 80% das espécies de plantas de nossas florestas não são árvores. Com relação à fauna, nossas formações florestais abrigam milhares de espécies, que co-evoluíram ao longo de muitos milhares de anos. mais de 2/3 das espécies arbóreas nativas do sul do Brasil apresentam frutos carnosos ou de outras formas adaptados à dispersão pelos animais silvestres. No caso de eucalipto, pinus e acácia negra, que correspondem a mais de 95% das culturas arbóreas no Brasil, não apresentam frutos para a fauna e, além de exóticas, possuem substâncias alelopáticas que dificultam o crescimento da diversidade natural das florestas. Os plantios de lavouras de árvores têm ciclos de corte, ao contrário das florestas nativas, que podem ter cortes seletivos, com manejo.
Os produtos como celulose, madeira, resina e outros derivados de árvores são essenciais à sociedade. Entretanto, as monoculturas arbóreas não podem ser consideradas como florestas. Os cultivos arbóreos comerciais, nos padrões atuais, têm ciclos curtos (sete a dez anos), funcionando como grandes lavouras de árvores. Nesses sistemas de produção ditos “modernos”, temos somente uma espécie arbórea, geralmente exótica e geneticamente idêntica, pois é propagada por clonagem de tecidos. A diversidade é praticamente ausente. A estratificação é ausente. A fauna é profundamente escassa. Os biocidas e os insumos químicos são instrumentos inerentes deste sistema de homogeneidade arbórea produtivista. Portanto, as monoculturas arbóreas não são florestas, pois negam os elementos mais básicos dos sistemas naturais.
Neste sentido, sem demérito a importância da silvicultura com espécies exóticas, o termo Florestas Plantadas é profundamente equivocado quando se tratar de plantios de monoculturas arbóreas. Cria confusão na população e serve para a propaganda enganosa das empresas que plantam enormes maciços homogêneos de árvores e se dizem "reflorestadoras".
Atenciosamente.
Paulo Brack - Departamento de Botânica - UFRGS
Eng.º Agr.º Geraldo Boêger Eller em 16/07/2008 às 08h46
Plantar eucalipto contribui p/ secar as nascentes ? Sim e Não, depende do manejo de toda a bacia contribuinte. Na prática tenho observado nascentes que secaram após o plantio de eucalipto no entorno, e os Agricultores também têm me declarado vários destes casos. Em muitos casos, a causa é apenas a ganancia. É preciso respeitar as leis ambientais, e investir não apenas em plantio de nativas ao redor da fonte de água, mas também, manejar corretamente todas atividades (pastagens, lavouras, atividades "urbanas"...) na área contribuinte do entorno, visando aumentar a infiltração da água e reduzir o escoamento superficial(...). O problema é que em nossa sociedade a vontade de ganhar dinheiro a qualquer custo é muito maior que a de preservar as condições de vida humana, e menos ainda da vegetal e de outros animais. Se não houverem medidas adequadas, pouco a pouco a nossa vegetação nativa será substituida integeralmente por eucaliptus, pinus, pasto, cidades, lavouras, escavações, e outros usos. É preciso punir os infratores, essa é a única forma de educação ambiental que estes (eles, elas, ou nós) entendem.